quarta-feira, 24 de junho de 2009

A la Hitchcock

A comparação entre Dario Argento e Alfred Hitchcock é inevitável, assim como é inevitável a constatação de que os dois são designers da imagem.

Cada plano, cada seqüência, cada cena dos filmes dos dois cineastas é pensada com antecedência, nada ocorre por acaso. A disposição dos objetos em cena, o jogo de luzes, as cores, sombras e tudo o mais é calculado para causar o efeito desejado: assustar o expectador.

Em Prelúdio para matar, título brasileiro infeliz de Profondo Rosso, Argento conta a história de um pianista que presencia um assassinato e, ao lado de uma tresloucada jornalista, vai investigar o crime por conta própria.

A decupagem das cenas é brilhante na falta de um adjetivo melhor. A câmera realmente desliza como disse o Evandro em seu blog. Argento usa com precisão um recurso que às vezes é negligenciado pelos diretores de cinema: o cenário. Cada locação, cada quarto, cada ambiente representa alguma coisa. A mansão abandonada, a casa de campo, o apartamento moderno e as ruas vazias e escuras representam um pouco a personalidade das suas personagens.

Com as óperas italianas Profondo Rosso tem duas semelhanças: possui altos e baixos e, após o fim, é difícil tirá-lo da cabeça.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Da inevitabilidade do destino

O policial John McClane ficou famoso por ser a pessoa certa no lugar errado. Os filmes da série Duro de Matar, protagonizados por Bruce Willis, em especial o primeiro dos quatro, giram exatamente em torno desse mote.

De certa maneira é isso também que acaba ocorrendo com o simpático urso Po, só que ao contrário: ele é a pessoa errada no lugar certo. Falar da excelência gráfica de Kung Fu Panda ou do moralismo disfarçado de mensagem edificando presente na maioria das animações americanas é chover no molhado. Mas essa produção apresenta algo diferente, ela flerta com a inevitabilidade do destino.

Além da evidente transformação do protagonista, que de um simples cozinheiro se torna um lendário guerreiro, a fuga da prisão do vilão só acontece por um motivo simples, porque tinha que acontecer. Mas isso não se trata de previsão ou adivinhação, a fuga só ocorre com a chegada do mensageiro que justamente tinha a missão de solicitar um reforço à guarda do bandido prisioneiro. Provando que uma ação impossível só se torna possível no momento em que se faz tudo para impedi-la.

Além do treinamento do Panda no melhor estilo Rocky Balboa, em Kung Fu Panda, pela primeira vez desde Forrest Gump, uma pena tem importância decisiva nos acontecimentos. Filme bacana.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A dose exata

Moça com brinco de pérola conta de que forma uma jovem camponesa analfabeta teria sido a inspiração do pintor Johannes Vermeer na criação de um de seus mais famosos quadros.

Scarlett Johansson é Griet, a moça que abandona a família para trabalhar como ajudante doméstica na casa do pintor Vermeer, papel este que cabe a Colin Firth. O diretor Peter Webber consegue encontrar a dose exata dos dois, ou seja, muita Scarlett e pouco Firth.

Da mesma forma que o excêntrico pintor vai misturando matizes até chegar ao tom perfeito, Webber constrói uma fábula que prende pela beleza das cenas e pela força das suas personagens. E mais um ponto para o diretor: deixar Scarlett Johansson com cara de empregadinha mal tratada não deve ter sido tarefa fácil.

Um Cão Andaluz numa quarta-feira

Uma das mais divertidas histórias que cercam Um Cão Andaluz é a de que, no dia da primeira exibição do filme para uma platéia de intelectuais, Luis Buñel teria levado nos bolsos da calça algumas pedras para revidar um possível ataque da platéia.

Naquela ocasião as pedras não precisaram sair do bolso de Buñel, mas o filme provocou reações indignadas em muitos locais em que foi exibido.

O grande barato da produção de 17 minutos, talvez os 17 minutos mais discutidos do cinema mundial, é que a lógica do filme é exatamente não ter lógica nenhuma. As cenas que vão se sucedendo não apresentam linearidade de tempo, personagens ou cenários, mesmo porque essa era a intenção.

Uma descrição possível para o filme é que ele é composto por um punhado de sonhos filmados, descrição essa do próprio Buñel. Tenho pra mim que não. Acho que é o contrário. O filme não é formado por sonhos, os sonhos é que são formados por pequenos filmes. Se você achou esse comentário surreal, vá assistir ao filme. Mesmo que seja numa quarta-feira.